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domingo, 05 de setembro de 2010
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Entrevista
27/06/2010 23h09
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Renato Regazzi diz que o pré-sal é uma oportunidade para o Brasil

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Consultor do Sebrae-RJ, Renato Regazzi
Consultor do Sebrae-RJ, Renato Regazzi

O pré-sal é uma oportunidade de o País dominar tecnologia de processos no aperfeiçoamento de plataformas para exploração em águas profundas e, posteriormente, exportá-la para o resto do mundo ajudando a melhorar o perfil da balança comercial brasileira, declara o consultor do Sebrae-RJ, Renato Regazzi, engenheiro mecânico graduado pela UFRJ com pós-graduação em Administração pela Fundação Dom Cabral e mestre em Gestão Tecnológica pelo CEFET.

Regazzi fala do ‘boom’ econômico por que passa o Brasil e explica também o conceito ‘green building’.

A seguir, a entrevista.

ALAGOAS NEGÓCIOS – A economia nacional está em franca expansão. Como o empresariado brasileiro pode aproveitar esse ‘boom’ por que passa a economia brasileira?

Renato Regazzi – O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) puxa todos os setores econômicos. Obviamente, alguns segmentos são mais dinâmicos em relação a outros, a exemplo da agropecuária, da indústria, do comércio e de serviços. Essa expansão deve-se a um maior volume de recursos na economia beneficiando todas as cadeias produtivas. Esse crescimento de 9% no primeiro trimestre de 2010 ante 2009, realmente, é um ‘crescimento chinês’

ALAGOAS NEGÓCIOS – Essa expansão vigorosa do PIB não traz graves problemas de gargalos para o País?

Renato Regazzi – Sim. O ‘doce problema’ é o ‘estresse’ de infraestrutura de logística e de energética.

ALAGOAS NEGÓCIOS – Por que ‘doce problema’?

Regazzi – Porque a economia cresce. Os empregos vão aumentar e vão melhorar. A ainda pequena pressão inflacionária é uma mostra de que as indústrias estão sendo exigidas, e as pessoas estão consumindo mais. Por enquanto, a indústria está conseguindo atender a demanda. Além disso, essa carência de infraestrutura pode tornar-se boas oportunidades, principalmente, para a cadeia da indústria da construção.

ALAGOAS NEGÓCIOS - Quais os segmentos produtivos estão melhor tirando proveito do crescimento econômico?

Regazzi – O segmento mais pujante no Brasil é a cadeia produtiva de petróleo e gás em decorrência dos investimentos feitos pela Petrobras na exploração do pré-sal. Então, essa demanda exige muito da indústria naval offshore (águas profundas), que exige muito da cadeia produtiva. A exploração em offshore requer plataformas e navios e, atualmente, a Transpetro está encomendando navios de transporte de petróleo. Isso vai rebater positivamente no setor metalmecânica, de plástico, de móveis voltados para a área náutica, de serviços de engenharia especializados em offshore entre outros segmentos.

ALAGOAS NEGÓCIOS – E, no setor de refino?

Regazzi – É verdade. A Petrobras vem investindo em novas refinarias e na área de polímeros. O maior exemplo é o Comperj, situado no Rio de Janeiro, cujos investimentos alcançam R$ 9 bilhões destinados a produção de resinas para a indústria de segunda geração. Então o petróleo é o grande alavancador de nossa economia.

ALAGOAS NEGÓCIOS – Quais outros segmentos também vêm surfando nesse crescimento econômico?

Regazzi – A construção civil. As inúmeras obras de infraestrutura no País estão puxando a cadeia produtiva da indústria da construção. São obras estruturantes – portos, rodovias, ferrovias - realizadas pelo Estado que, por sua vez, trazem a reboque a iniciativa privada.

ALAGOAS NEGÓCIOS – O Brasil está crescendo. É fato. Agora, o que é necessário para o País fabricar produtos de valor agregado e mudar o perfil da balança comercial de commodities para produtos manufaturados? Está sendo feito alguma coisa?

Regazzi – Sim. Na parte de petróleo está havendo investimentos via Ministério da Ciência e Tecnologia, por meio da Finep, no desenvolvimento de projetos para a melhoria de produtos e processos na exploração do petróleo em águas profundas. E o interessante é que o Brasil já domina a exploração em águas profundas, inclusive, os recordes mundiais são da Petrobras. E quem produz não é a Petrobras. São empresas contratadas pela Petrobras que tiveram apoio do Cenpes (Centro Tecnológico da Petrobras) e foram incubadas. Elas desenvolveram tecnologias que melhoram a eficiência das plataformas, com mais leveza, produtividade e custo menor. Isso torna o País apto a colocar esse know-how em plataformas em outros blocos internacionais.

ALAGOAS NEGÓCIOS – Esse trabalho de aprimoramento e de estudo de novas tecnologias está sendo distribuído em todo o País, ou está restrito ao estado do Rio de Janeiro.

Regazzi – Está homogêneo. Há projetos patrocinados pela Petrobras e pelo Sebrae em 14 estados da Federação para desenvolvimento de fornecedor visando a cadeia produtiva de petróleo e gás, justamente, com foco nos pequenos empreendedores. Os recursos de tecnologia disponíveis pela Finep estão abertos para as empresas de qualquer região do País. Obviamente, como o Cenpes está localizado no Rio de Janeiro, as empresas próximas tiram melhor proveito das pesquisas tecnológicas desenvolvidas pelo centro. Contudo, os Cenpes também já estão em outros estados, a exemplo de Minas Gerais e São Paulo, tendo papel decisivo na descoberta de inovações tecnológicas dirigidas à cadeia produtiva do petróleo e gás.

ALAGOAS NEGÓCIOS – E qual a contribuição do pré-sal para a pesquisa e o desenvolvimento?

Regazzi – O pré-sal é uma oportunidade única de pesquisa tecnológica para o País por posicionar seu parque industrial e tecnológico para ser um exportador em nível global.

ALAGOAS NEGÓCIOS – Como?

Regazzi - O fato de as empresas do mundo inteiro estarem interessadas no pré-sal não é só pela quantidade de blocos na costa brasileira. O Brasil tem um volume imenso de petróleo no pré-sal. Mas há pré-sal em outros lugares do mundo. O detalhe, é que existe aqui, uma política específica para dominar a tecnologia de exploração do pré-sal que não é dominada mundialmente. Então, as empresas têm interesse em participar da exploração dos blocos nacionais para dominar a tecnologia em pré-sal para posteriormente saber explorar outros blocos no resto do mundo. Isso demonstra que explorar o pré-sal brasileiro é uma estratégia global, seja para as empresas petrolíferas seja para as empresas da cadeia do petróleo e gás. Tendo esse domínio tecnológico, o mundo não tem mais fronteira. É uma oportunidade única de o País ser exportador dessa tecnologia.

ALAGOAS NEGÓCIOS - Qual sua opinião sobre a política do governo em fomentar a indústria de petróleo e gás ?

Regazzi – É muito boa. Inegável que existe uma vontade política para desenvolvimento das cadeias produtivas. E há um projeto chamado de Prominp (Programa de Modernização da Indústria Nacional de Petróleo) que é fantástico e precisa sempre ser aperfeiçoado. Se a gente disser que não existe política industrial, não existia no passado; hoje, existe sim. Há uma política ambiciosa na área do petróleo com inteligência e pessoas capazes. Não tenho dúvida que está dando certo e vai dar mais certo ainda. Vai projetar o País nas exportações. Inclusive, há projeto desenvolvido no Brasil, em que o Sebrae RJ é precursor de internacionalização de empresas na área de petróleo e gás via Prominp em parceria com a comunidade europeia.

ALAGOAS NEGÓCIOS – Antes de iniciar a entrevista, o senhor estava falando sobre o ‘green building’, um novo conceito no setor da construção civil. O que é isso?

Regazzi - Falamos sobre petróleo e gás. Agora, vamos abordar a construção civil que está alavancando bastante a economia. E a maior oportunidade é o déficit habitacional do País. O déficit habitacional criou um problema urbanístico presente em todas as capitais que é a favelização. E, no passado, não havia política habitacional.

ALAGOAS NEGÓCIOS – O senhor está falando que nunca houve política habitacional no Brasil.

Regazzi – É verdade. Nunca existiu mesmo. Política habitacional é uma coisa dinâmica. Uma coisa que a sociedade assume e o setor privado vai e atenda a demanda via financiamento pela real necessidade da população. É totalmente diferente de que se construir mil casas ali, mil, acolá. Isso não é política habitacional. É uma grande enganação. Falo com toda certeza do mundo.

ALAGOAS NEGÓCIOS - E como deve ser a política habitacional ideal para resolver o déficit de moradias?

Regazzi – É uma questão simples: fazer uma equação de financiamento via Caixa Econômica Federal e via outros bancos [como o Banco do Brasil] em cima do déficit com algumas garantias do próprio governo, com um trabalho de cadastramento e com empresas com tecnologias apropriadas para habitação de tal modo que promova moradias com conforto para as famílias. Não adianta fazer habitação que não seja digna, que não tenha conforto, que seja barulhenta e quente devido ao uso de materiais inapropriados. E, atualmente, está mais fácil. A própria empresa pode escolher o terreno ideal para a construção de unidades habitacionais sem a interferência de políticos. Ou seja, hoje, o mercado resolve. Porque é mais barato morar dignamente do que residir em localidade de risco. Com menos de R$ 100,00, a pessoa paga a prestação da casa própria. Até as famílias que vivem na informalidade ou ganham salário mínimo podem custear as mensalidades dos financiamentos.

ALAGOAS NEGÓCIOS – A valorização de terrenos em função do Programa Minha Casa, Minha Vida não pode ser um inibidor para a atual política de habitação?

Regazzi – Depende. O País cresceu e há bons quadros técnicos em todos os estados. Há pessoas pensando em vários locais. Antes havia boa vontade, mas não se transformava boa vontade em ação porque não se tinha conhecimento. As coisas não andavam. Então, o que está por trás da lógica da ‘Minha Casa, Minha Vida’? É para escolher terrenos do lado de infraestrutura de transporte urbano. Não precisa morar no centro da cidade. É uma coisa de Brasil. Nos Estados Unidos, todo mundo mora no subúrbio. Agora, os americanos moram lá porque há estrutura de transporte adequada. Não adianta pensar num projeto habitacional sem pensar na estrutura de transporte. Tem que haver esse casamento. Se não houver, o projeto está totalmente errado. Porque a pessoa vai pra lá, vai vender o imóvel e depois vai voltar para o centro. Isso não pode ocorrer.

ALAGOAS NEGÓCIOS – O senhor na condição de consultor da instituição do Sebrae RJ, como analisa esse ‘apagão’ de mão de obra na área da construção civil? O que pode ser feito para resolver esse gargalo?

Regazzi – O Ministério da Educação está mobilizando as escolas técnicas, inclusive, já mobilizou o Sistema S ligado a formação profissional – Senai, Senac – para capacitar profissionais visando suprir essas carências regionais. Há uma demanda forte por mão de obra profissionalizada. O Brasil sofre de outro ‘doce problema’. Não existe falta de emprego em determinados setores. O que existe é a carência de pessoas capacitadas para determinada função. Técnicos de soldagem, de elétrica são insuficientes para as necessidades do mercado.

ALAGOAS NEGÓCIOS – Sim, mas o que é mesmo o conceito de ‘green building’?

Regazzi – É pensar nos projetos econômicos atrelados à sustentabilidade. Se pensa na parte econômica mas sempre de olho na sustentabilidade no que diz respeito ao meio ambiente e no conforto da população também. E, nesse sentido, a construção civil vai percorrer o caminho da preservação do meio ambiente passando a utilizar matérias-primas sustentáveis de maneira que a construção aproveite melhor a questão energética, como a luz natural, e o reuso da água. Dessa forma também se reduz o custo da obra.

ALAGOAS NEGÓCIOS – O Programa Minha Casa, Minha Vida vai além do Governo Lula?

Regazzi – A política industrial para dá certo tem que ter vontade política e endereço privado. Tem de ter vontade política se não é viável. E hoje existe vontade política e endereço privado dos bancos. Virou uma oportunidade de negócios. Não há como voltar atrás. Porque a sociedade já assumiu como um negócio. E, aí, quem não tem vontade política, terá de ter sim vontade política porque será cobrado automaticamente pela população.

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