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Infelizmente, 8 mil brasileiros morrem vítimas de câncer de próstata. Para se ter uma noção do quão grave é esse problema, a cada hora um homem morre por conta dessa doença. Segundo a Sociedade Brasileira de Urologia, atualmente, 400 mil brasileiros já possuem câncer de próstata e nem sabem disso. A estimativa para este ano é que surgirão 48 mil novos casos confirmados da doença. São 51 casos para cada grupo de 100 mil habitantes, o que representa um em cada seis homens terá câncer de próstata. Para falar sobre esse assunto e também sobre o câncer de pênis, outro problema sério, mas que está ligado a problemas sociais e educacionais, o portal Alagoas Negócios, entrevistou o urologista Mário Ronalsa, que recentemente foi eleito presidente da seccional alagoana da Sociedade Brasileira de Urologia. Leia a entrevista abaixo:
Alagoas Negócios – Quais são as principais doenças que atingem ao homem alagoano?
Mário Ronalsa - Câncer de pênis e câncer de próstata.
AN – Quais são os principais sintomas dessas doenças?
MR - O câncer de próstata, infelizmente, praticamente não possui sintoma patológico, a não ser quando o caso está bastante avançado. Esse sintoma é o mesmo daquele que tem o aumento benigno da próstata, ou seja: levanta a noite por mais de duas ou três vezes, o jato é fino, entrecortado e faz esforço para urinar. Esses mesmos sintomas podem ser benigno, mas também podem ser sintoma de um câncer de próstata que está ali, guardadinho. Quando o paciente começa a ter sangramento e dor óssea, ele está num estágio bastante avançado de câncer e se ele não for bem orientado a fazer PSA (Antígeno Prostático Específico) e o toque retal todos os anos, ele vai ter uma chance muito menor de ter a cura ou uma melhor recuperação.
AN – Os custos para promover ações preventivas dessas doenças são altos?
MR – Com relação à prevenção, não existe prevenção para câncer de próstata. Porém, existe para o câncer de pênis, que é a higiene do órgão com água e sabão. Contudo, para diagnosticar o câncer de próstata de modo mais rápido e num estágio inicial, é indispensável fazer todos os anos o exame do toque retal e o PSA.
AN – A partir de quantos anos é indicado para que o homem procure um urologista e faça o exame de toque retal e o PSA?
MR – É aconselhável que indivíduos acima de 45 anos ou de 40, quando existe um parente de 1 º grau com caso de câncer de próstata comprovado, façam esses exames. É importante destacar que o toque retal possui um valor muito grande, pois em alguns casos, não é constatado expressão clínica de PSA, mas o paciente tem o câncer. Então, se você não faz o exame de toque está deixando o câncer passar despercebido. Fazendo o exame do toque, a margem da doença passar despercebida cai para 5%. Então, o toque tem um valor muito grande. Enquanto ao câncer de pênis, o que tem que ser feito é conscientizar a população para fazer a higiene.
AN – Quais são os fatores de predisposição do câncer de pênis?
MR - Má higiene, fimose e doenças sexualmente transmissíveis, tipo HPV. Esses três problemas estão muito associados ao câncer de pênis e o Brasil é um dos campeões em câncer de pênis, junto com alguns outros países da África, Paraguai e algumas regiões do México. O Norte e Nordeste do nosso país têm cinco vezes mais casos de câncer de pênis do que nas regiões Sul e Sudeste. Então, a gente vê que esse é um problema socioeconômico e falta de governo para orientar a população sobre o que deve ser feito.
AN – Hoje, o homem ainda possui preconceito ao exame de toque retal ou o seu comportamento mudou?
MR – Na década de 1970, esses pacientes chegavam apresentando um quadro bastante avançado do câncer. Hoje o que percebemos é justamente o contrário. Se naquela época 70% dos pacientes apresentavam um quadro avançado, hoje, apenas 30% dos pacientes da nossa década chegam com estágio avançado.
AN – Em sua opinião, a que se deve essa mudança de postura?
MR – Acredito que essa mudança tenha ocorrido devido a uma maior divulgação da doença na mídia. A própria Sociedade Brasileira de Urologia também desenvolve campanhas de conscientização, com entrega de panfletos, anúncios em televisão e outros meios para complementar o trabalho já desenvolvido.
AN – Pode-se dizer que o homem já desenvolveu o hábito de se consultar com o urologista?
MR – Já começou a ter esse hábito. Inclusive, percebemos mudanças quanto ao exame do toque retal, principal causador da aversão entre os nordestinos brasileiros. Hoje é possível encontrar pacientes do nível social e econômico mais baixo que perguntam: “doutor, e o toque, que é o principal exame, dá para ver mais?”. Infelizmente, muitos médicos usam o lado pejorativo do exame, então se o próprio médico começa a brincar com aquela coisa, você não leva a sério um procedimento que é muito sério.
AN – Quais trabalhos a Sociedade Brasileira de Urologia vem desenvolvendo no Estado?
MR – Nós estamos fazendo, inclusive eu, como responsável pelo escritório da Sociedade em Brasília, alguns trabalhos de estudo mercadológicos para os novos urologistas. Isso permitirá a esses profissionais saber para onde ir e o que definir quando saírem da residência médica. Conhecendo a Urologia Brasileira é outro projeto, o qual coordenei e já está em nosso portal, que num banco de dados onde é possível acessar informações sobre hospitais do SUS que oferecem assistência urológica, quais os urologistas vinculados ao hospital e como essa assistência tem sido feita. Através do Conhecendo a Urologia Brasileira é possível saber quanto de saúde suplementar existe nessa cidade e quanto tem do SUS, além de outras informações. Também estamos articulando, junto com o Dr. Manoel Mendes, a criação da Confederação Lusófona de Urologia, o qual irá abranger todos os países de língua portuguesa, são oito no total: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Brasil, Portugal e Timor Leste. Então, assim como existe a Confederação Americana de Urologia, quero criar a Confederação Lusófona de Urologia. Isso irá permitir uma aproximação dos países de língua portuguesa, mas como a maioria dos países ainda não tem associações ou sociedades de urologia, por enquanto será criada uma Pró-Confederação Urológica de Países Lusófonos e, posteriormente, a Confederação.
AN – É possível pensar a urologia dentro do PSF, principalmente para tratar a questão do câncer de pênis?
MR – Já existe. Inclusive, em alguns municípios, especialistas contratados, que capacitam, através de palestras, os médicos generalistas. A intenção não é torná-los urologistas, mas passar o básico, como pedir para que o paciente faça o PSA e o exame de toque, para que seja possível detectar possíveis problemas e o indivíduo seja encaminhado para os profissionais competentes para serem tratados. Esses médicos, por sua vez, também orientam os agentes de saúde, que são aqueles que vão à casa do próprio paciente.